Finis coronat opus | A metafísica ou a ficção do renascer
Lembro-me, unicamente, do último dia, antes da hecatombe. Ainda hoje dança no meu pequeno mundo onírico. Tal como no princípio, tudo, para mim, é novo e velho simultaneamente. É assim, pois, que recordo o último dia dos senhores da guerra e do mundo. Sentara-me na colina dos Vivos, ouvindo o sussurrar profético e doloroso das águas do regato e o céu mostrava-se estranho, como que anunciando uma trovoada. Já passaram muitos séculos e, se bem me lembro, estávamos no fim da primavera. Por várias vezes, naquele dia, tive a sensação de que tudo chorava em uníssono. Um pássaro viera poisar perto de mim, saltitando nervosamente; as fragas eriçadas, lembrando um surdo exército preparado para o ataque; as plantas murchando com o calor; o vento que soprava de tempos a tempos e o regato, que ainda corria lá em baixo desde as primeiras chuvas do Inverno. Todo este fantástico movimento se aliava, profundamente, ao semblante duma derradeira sinfonia. Era o presente incógnito, falso e perigoso. Os presidentes ditaram as ordens mais loucas, como o último suspiro do dragão e, no dia em que as estúpidas máquinas da guerra vomitaram fogo, passaram a existir na eterna mentalidade dos mortos e dos vivos. Os astrólogos anunciaram a era do Aquário e os astrónomos avisaram dos perigos com a aparição do cometa Halley; mas a dor da Natureza agudizou-se e, quando a noite caiu, todo o céu se matizou de vermelho. As larvas humanas sentiram-se rodeadas de sangue e moldaram-se na terra virgem dos séculos. (Ah! Que séculos – que centúrias!).
Olhei para o céu vermelho, em direcção à estrela Polar, mas esta não estava lá. No mesmo lugar vi três incompreensíveis pontos negros, que mais tarde se transformaram em branco fosforescente, até desaparecerem completamente. A crosta terrestre deixara de ser terra e água, mostrando uma extensa massa castanha, por entre larvas e os poderes telúricos.
E, por mais uma vez, os “robots” dos loucos ribombaram fogo e ódio, clareando o infinito celestial. Creio que todas as cidades caíram e agora as larvas humanas, loucas por entre escombros, começavam a sofrer terríveis mutações. Apareciam visões ectopsíquicas tão fantásticas que eram inconcebíveis a um normal homóide.
O rosto de meu pai, lá ao fundo sentado, na tripeça, tomava as magras feições de Gandhi, até que tudo terminou para ele. Vi-o cair e fundir-se com aquela castanha massa do solo. Mas todos os que caiam inertes desapareciam e deixavam de existir no nada eterno. A noção que se podia ter do tudo e do nada passou a um plano igual às nossas indefiníveis existências.
Que se passou!? Lá ao fundo um grupo de larvas gemia, como que rezando as últimas ladainhas enquanto desapareciam no maldito solo. Até aquele momento não me ocorrera a ideia de implorar por forças metafísicas, estranhas aos meus instintos. No entanto eu nunca acreditara em tais superiores deuses do Olimpo. Ao pronunciá-los, subitamente, senti os meus pés fundirem-se ao solo e, ante o meu desejo de os arrancar, o sentido dos deuses desapareceu de mim para sempre. Gritei “NÃO"! Esta palavra soou durante muito tempo num cosmo-espaço incógnito. Suponho que tudo terminou ali.
Fiquei assim moldado ao solo durante talvez muitos séculos, enquanto o planeta vagueava procurando um lugar, ou mesmo um pai; no entanto a única certeza que eu tenho são as minhas intemperadas recordações dum mundo esquecido. Recordações da bela e estúpida ciência, do crime, da guerra e do fim depois do xadrez dos políticos. A luxúria e o egoísmo homosapiense trouxeram a destruição total e penso mesmo que poucos restaram. Talvez eu seja um dos tripulantes dalguma última arca. Hoje, ainda aqui fundido ao solo, descobri que transitara a um universo oposto onde, sistematicamente, não existe princípio e fim para a minha existência. Num ancestral conceito de vida e morte, talvez eu tenha morrido para sempre, mas, na realidade, sinto uma paz imensa e um desejo na minha materialização. Mas assim fundido ao solo estou, implacávelmente, ligado ao passado - uma sociedade morta. O problema judaico transformou-se, assim como tudo se transformará. O passado alicerçou o presente e o presente alicerçará o futuro, é a História. As causas do presente residem no passado. É esta a lógica, mas eu, estranhamente, vivo um presente; um presente ignoto e insalubre, tão ligado ao passado como ao futuro. É como que uma conexão total de tudo e um presente eterno.
A ânsia de me libertar era assaz forte, e ia alimentando essa vontade constantemente, até que várias sensações bem fortes se apoderaram de mim. Compreendi que era o desejo da materialização e do Mundo Novo que se aproximava. Gritei e senti que aquele grito penetrara em mim próprio. Senti um movimento no meu corpo e notei que se ia libertando do solo. Era o início da minha materialização.
Senti uma mudança no meu raciocínio que começava a declinar, mas algum tempo depois tive a noção de que me encontrava encerrado numa membrana elástica. Achava-me seguro ali e começava-me a nascer uma luminosa esperança, mas havia algo que eu não compreendia. Notara uma mutação horrivelmente bela(!), à qual já me ia habituando. Refiro-me ao meu corpo, pois todo ela se comprimiu e os tecidos da sua composição eram macios e frágeis. No início fazia muitas questões a mim mesmo, mas as respostas eram sempre relativas e identificavam um sistema morto; e era a razão porque jamais conseguira definir a minha situação.
Entretanto tinha forte impressão de que do outro lado da membrana, que me comprimia, estava um lugar edénico e prometedor, mas nunca tentei uma fuga; talvez porque acreditasse num poder oculto. Oh! Porque havia eu de acreditar nessas forças metapsíquicas? Porquê este pensamento, já que nada sucede ao acaso!? De qualquer modo sinto a existência de algo! Assim mexi-me desesperadamente, dando uma volta dentro da membrana, sem conseguir sair! Senti-me cansado, mas uma paz apoderou-se de mim avivando-me a esperança. Adormeci.
Não sei quanto tempo dormi, mas quando acordei pude notar que o meu corpo se havia tornado um pouco maior forçando e ampliando a membrana. O sangue já circulava nas minhas veias.
As recordações do passado, da hecatombe, das metamorfoses da minha morte, de tudo já ido, estavam agora fora do meu conceito drama; só que ainda quero recordar os proféticos pontos negros e a morte de meu pai sentado na tripeça.
Gemi um pouco – estas manifestações físicas afastavam-me sempre mais do passado longínquo que se ia instalando num plano puramente metafísico.
A membrana começou a comprimir-se fortemente, empurrando-me suavemente, obrigando-me a penetrar num túnel horrivelmente apertado. Senti tudo tão natural que gostei de ir deslizante para o desconhecido, o qual acreditava ser a minha libertação. Convulsões bruscas e aliadas a gemidos, começaram a chegar aos meus ouvidos. De repente um grande clarão se vislumbrou, que quase me cegou. Era a luz que me acariciava novamente.
Foi, na realidade, o embate com o Mundo Novo como eu tanto ansiara. Foi o esquecimento de tudo e o início do nada carne para a perfeição total. Já sei dizer “Mãe” e “Pai”.
Antero Guerra Inácio \ Fevereiro de 1975


