24 de maio de 2022
Água, um bem cada vez mais precioso
Da ilusão à realidade
Antero Guerra| Agosto 2021
A viagem das árvores
São cinco árvores e todas elas são diferentes. Se isoladas estivessem quase que passariam despercebidas, mas no seu conjunto transformam-se num atraente mistério.
Todos
os dias as aprecio por alguns momentos. A avaliar pelas suas formas, têm
identidade própria, tenho essa certeza. Ou, pela graciosidade do seu bailado,
quando tocadas pela brisa que sopra fresca, vinda dos lados de lá da Serra de Aire.
A mais ousada lança as suas ramagens em redor seu tronco, como uma águia exibindo
as asas num longo planar. Outra estica-se para o ar como querendo chegar ao
céu. Das restantes três destaca-se o pequeno elefante, pela sua forma. É isso
mesmo que representa, sentado de tromba pendente parece amuado de costas
viradas para a águia. E as duas restantes aparentam não querer impor-se, No
entanto. completam o conjunto conferindo-lhe a perfeição.
Há
décadas que as vejo crescer num quintal da minha rua e não tenho dúvidas que me
inspiram. Ou é a diferença dos seus verdes ao longo do dia, os diferentes sons que
delas saem ou a vida alada que por ali deambula. Observando assim estes seres condenados
a viver presos ao solo, que mundo poderão eles conhecer?
Deambulando
nesta quase caótica meditação concluo que, mesmo eternamente imóveis, estas podem
viajar. Imagino quantos milhares de automóveis e aviões já viram. Os dialetos
que escutaram. Os melhores e os piores odores que atravessaram o seu folham. Amores
e ódios usaram a sua sombra. Tantas e tantas conversas ouviram, mesmo os
maiores segredos e testemunharam lágrimas e alegrias.
A
brisa, que do mar aqui se espraia, depois de pular a serra e o arrife, carrega
consigo tanto eco, tanta cor e tanta história.
Num
sentido que parece contrário a lógica as árvores viajam sem medos e sem ódios
para longe. E quanto nos poderão ensinar na sua mudez?
Talvez
a sua sabedoria nos ensine como conseguiremos limitar tanto a pobreza como a
riqueza. Talvez a sua pose estática nos diga do valor da tolerância. Talvez o
seu intenso verde nos contagie de esperança.
Antero Guerra | 29 Junho 2021
O amola tesouras
Havia
muita magia no desenrolar daqueles processos, ao observar as chispas de fogo
que saíam da pedra esmeriladora. E depois de afiadas, lá tínhamos nós as facas
e tesouras prontas para mais uma temporada e os alguidares preparados para a
lavagem dos intestinos do porco, que acabariam no fumeiro em forma de chouriço.
Durante
décadas deixei de ouvir esse curioso do amolador, mas, recentemente, começou a
ouvir-se pelas nossas ruas. Na vontade de reviver aquela sensação da infância,
vou sempre à janela espreitar e digo para os meus botões que um dia destes haverei
de experimentar o serviço. É que a tarefa de afiar facas cá em casa nunca me
correu da melhor perfeição.
Eis que, há alguns dias, um amola tesouras regressou. Perante o apito percebi que estava próximo e, decidido, corri a procurar algumas facas que precisavam de ser afiadas. Numa assentada juntei seis e perguntei quanto custaria aquele serviço. “Não se preocupe amigo”, respondeu-me, acrescentando que é barato. Concordei e pedi-lhe para executar a tarefa. Foi rápido. Talvez rápido demais, a avaliar pela “riscanhada” que gravou na folha das facas. Seis facas afiadas em pouco mais de um quarto de hora. Muito bem. Excelente o rapazola que trabalhou rápido. Agora era saber o custo. “Sessenta euros”, disse ele expedito. “Dez por cada faca”, respondeu ele, com a naturalidade de quem acaba de executar uma árdua e complexa tarefa. “É que a pedra de afiar a caríssima. Olhe, não lave as facas com água quente que estraga o fio”.
“Alto
lá. Alto lá. Não se enganou na sua conta?” Exigi que ele reavaliasse o preço,
pois isso nem o melhor cirurgião ganhava. Nem as facas valeriam tanto, talvez. Nada
mal. Sessenta euros por quinze minutos de trabalho, mas paguei metade e lá se
foi embora.
E
pronto. Assim, o encanto que guardava da figura do amolador, apagou-se. Doravante,
quando voltar a ouvir a flauta de pã, já não me virão as memórias da infância,
mas o alerta para o gamanço. O amolador pode pedir todo o dinheiro que quiser,
por isso convém perguntar sempre o preço, antecipadamente. Porque para alguém,
duzentos e quarenta euros à hora é barato!
Antero Guerra | 7. setembro. 2020
23 de maio de 2022
Jolas e tremoços
Estava eu no café e, na mesa do lado, estavam dois cavalheiros em acesa discussão. O tempo que corre, ao que parece, não é para menos. Um, quase exaltado, porque o Covid ia invadir a festa da Atalaia e o outro a bater com o punho na mesa, dizendo que em Fátima, no dia 13 (que é número de azar), não vai haver peregrino que se safe, infetados até ao tutano. Na mesa atrás de mim alguém sussurrou “nesses, coitados, nem quase os jornais falaram”.
Mais dois tremoços comidos e um que se escapuliu para o chão e sai-se o primeiro disposto a incendiar a conversa “E achas bem o Costa apoiar o Benfica, pá?”. Bem fica, claro! E se fosse do Sporting ou do Porto era igual, qual é o problema? E disposto a responder a cem porcento, ainda completou que “agora, o Pinto, o inimigo público do Luís Filipe vir em sua ajuda… essa é que nem o diabo se ia lembrar”. Vem ajudar ou vem pôr dedos na ferida?
E os tremoços a acabarem. Não faz mal. Pedem-se mais umas “jolas” e eles vêm á borla.
“E ainda por cima, agora vai a cachopada toda para a escola” Estava teimoso, o outro, em não se calar. “Vai ser um lindo arraial de covides! Ah pois é. E a culpa é daquelas da saúde”. E do governo e até do Sousa das selfies, completou o segundo.
Pumba! Mais um tremoço a voar. A culpa é da acesa conversa. O empregado de mesa, apressado, não vendo aquele infeliz pitéu estatelado no chão, levou-o esborrachado na sola do sapato para a outra ponta da sala. Sabe-se lá, talvez exportando um punhado de covidezinhos.
As “jolas” voaram rápido. Uns arrotos silenciados com a mão na boca, um juntar de trocos para a despesa e estão feitos os discursos por hoje.
Sem saber o que é que a lenda de Hans tem a ver com as jolas e tremoços, na verdade fiquei a meditar na exímia tendência que temos para nos lançarmos em exacerbadas críticas e maledicências. Até parece que tudo sabemos e somos guardiões das soluções milagrosas. Respaldados na nossa cadeirona, que nem o trono real, sabemos claramente que “ai se eu mandasse, carago!”. Falamos, falamos, falamos. E fazer, fazer, fazer… fica para depois. Adia-se e empurra-se para depois.
A lenda de Hans diz-nos que é preciso fazer. E agora, porque depois é tarde. Se Hans não se decidisse a manter o dedo, estancando o singelo fio de água, o dique iria ruir, engolindo toda a Holanda.
Por isso, melhor que falar é fazer. Quando muito tempo se perde a falar, melhor seria ficar sereno meditando na melhor forma de fazer.
Assim se realiza, sem ter de meter o dedo na ferida.
Antero Guerra | 14.09.2020



