24 de maio de 2022

Água, um bem cada vez mais precioso

Chico acordou em sobressalto. Tivera um pesadelo que o deixou deveras preocupado. Sonhara que se encontrava numa terra sem plantas, sem água, sem casas. Era um deserto imenso, onde a única forma concreta, existente, era a aridez. Era ele próprio a única forma de vida. Aquele isolamento, em que se encontrava, sufocava-o e ditava-lhe o termo da sua existência.
Levantou-se enérgicamente e correu para a janela, ainda na incerteza da fronteira entre o sonho e a realidade. Correu as cortinas e pôde ver que o seu jardim estava verde. Que as flores estavam ainda lá, em pleno encanto. Sentira que os pais já se haviam levantado e correu à cozinha, onde a mãe ia preparando os seus afazeres.
- “Bom dia mãe. Mãe! Tive um sonho de arrepiar. Tive tanto medo! Estava numa terra sem água! Era só eu. Era tudo tão seco!” - disse o Chico numa rajada, enquanto a mãe o afagava na vontade de o tranquilizar.
- “ Pois é Chico!” - retorquia a mãe. - “Sabes que há muitos meses que não chove. Os campos não têm água. Os rios quase não corre, e nós devemos ter muito cuidado a usar a água, porque sem ela não pode haver vida.”- e a mãe continuou os seus afazeres.
Chico correu à torneira, que insistia em pingar, e deu-lhe um ligeiro aperto.
-“ O papá ainda dorme?” - perguntou o Chico.
- “ Não! Está no jardim!” - respondeu-lhe a mãe.
Chico, correndo e já a abrir a porta para o jardim, disse:
- “Vou-lhe contar o meu sonho!”
O pai estava a colocar cascas de pinheiro nos limites da área da relva. Já o havia feito, noutras pequenas zonas do jardim, com seixo rolado e brita.
Num repente Chico ultrapassa os poucos degraus para o jardim num salto.
-“ Oi papá!”
- “ Dormiste bem, Chico?” - perguntou o pai com grande naturalidade.
- “ Papá! Tive um sonho... e tive tanto medo!”
...

A paisagem é árida. A ausência do verde é total. O céu avermelhado, mais parece um ambiente marciano. Na televisão um comunicado do presidente:
“Caros Munícipes,
Os níveis de precipitação ocorridos este inverno são muito inferiores aos valores médios habituais, podendo considerar-se este ano como “muito seco”.
Este facto reduziu drasticamente o armazenamento de água nas albufeiras, bem como diminuir as reservas de água subterrâneas.
É, por isso, aconselhável que cada cidadão se sinta sensibilizado para poupar ao máximo a água que chega às nossa casas.
Permitam-me, pois, que me dirija a todos vós chamando a atenção para uma correcta utilização deste bem precioso.

POUPE HOJE, PARA TER AMANHÃ!”
...

- “ Olha Chico! Queres ajudar o papá? - perguntou o pai.
- “ Pode ser! Posso regar? – propõe o Chico, pegando numa mangueira.
- “Sim, podes regar, mas com algum cuidado, para poupar a água.” – respondeu o pai. E continuou:
- “Aquelas plantas além precisam de muita pouca água, porque são plantas mediterrânicas. As outras, acolá – essas sim, podes regá-las um pouco melhor! Vê como estão lindas, aquelas rosas!” – disse o pai apontando, para um canteiro de rosas.
O pai aplicou uma torneira na extremidade da mangueira e Chico tinha o cuidado de a fechar cada vez que mudava de planta.
- “ Olha Chico! Essa torneira é uma torneira misturadora de ar. É muito boa, porque assim corre muito menos água.”
Aquele jardim parecia irradiar felicidade.
Entretanto a mãe preparava o pequeno almoço e convidou-os a irem à cozinha. O pai e o Chico terminaram rápidamente o seu trabalho no jardim.
-“Olha Chico, esqueci-me de te dizer que é muito importante regar de manhã! Mas pode ser de manhã ou ao pôr do sol.”- disse o pai, preparando-se para devorar uma torrada
- “Sabes... porque a terra ainda não está tão quente, por isso a água da rega não desaparece. Quer dizer, não se evapora. Assim as plantas ficam melhor regadas e não se perde tanta água!” – explicou o pai.
- “ Mas também tenho que dizer uma coisa.” – disse a mãe, enquanto se levantava e arrumava a sua loiça, no lava-loiça. - “Que aconteceria se os animais não tivessem água para beber? As vaquinhas não poderiam produzir o leite, que tão bem nos soube agora de manhã! Não acham?” – completava a mãe.
- “Que horror mãe! Temos mesmo que poupar a água!” – concluiu o Chico.
A mãe aproveitou a circunstância para solicitar uma pequena ajuda.
- “Agora vou encher a máquina de roupa! Tu Chico, vai acordar a Mariana. Ela ontem estudou até muito tarde. Deve estar bem cansada.” – disse a mãe.
- “Bom dia!” – era Mariana que, afinal já chegava à cozinha, esfregando os olhos e revelando, de facto, o cansaço do seu serão de trabalho na noite anterior. Não foi preciso chamá-la.
Chico não perdeu tempo para contar o seu sonho.
- “ Temos mesmo que poupar a água!” – concluía a Mariana.
A mãe passa com o cesto da roupa suja e pára junto do Chico dizendo-lhe:
- “Tu Chico... não puseste a tua roupa suja no cesto!” – repreende-o com alguma candura.
E correu rápidamente ao seu quarto. A mãe já se encontrava junto da máquina de lavar, quando o Chico chega com a sua roupa e observa que é o suficiente para completar a carga.
- “Vês Chico, cada vez que a máquina lava gasta-se o equivalente a 100 garrafas de água!”
- “ Tanta água!” – diz o Chico.
- “E é por isso que não se deve usar a máquina, se ela não estiver bem cheia!” – explicou a mãe.
O Chico concluiu que o mesmo será com a máquina de lavar loiça!
- “Quer dizer que a máquina de lavar loiça também tem que ficar cheia, não é?” – disse o Chico caminhando para a cozinha.
O pai já se encontrava na casa de banho.
O Chico reparou que, na bancada havia alguma loiça, suja acumulada do jantar da noite anterior e, rapidamente, assumiu a iniciativa de a colocar na máquina. Em verdade com boa vontade, mas com alguma desordem.
E encheu-a de tal modo que já nem fechava.
A mãe chegou e, rindo-se, explicou-lhe que a intenção foi boa mas...
- “ Queres ver os pratos que colocaste? Ainda têm o molho do peixe de ontem, temos que os tirar outra vez e limpá-los com papel. Assim...”.
E mostrou-lhe como se faz.
Mariana aproximou-se e também ajudou na tarefa.
A mãe retirou alguns tachos e uma panela que o Chico colocara na máquina, de forma algo caótica, - e que enchiam demasiado – para o lava-loiça, esclarecendo:
- “ Estes, temos que os lavar à mão no lava-loiça!”
- “Eu faço isso, mãe!” – prontificou-se a Mariana, fechando já o ralo do lava-loiça e, com a outra mão, pegando no detergente.
O Chico sentiu já não ser necessário na cozinha e decidiu ir ao seu quarto. Mas não sem dar mais uma espreitadela, através da janela, para o jardim, observando algum efeito do seu esforço, que dedicara às plantas.
Ao passar junto à casa de banho, reparou na porta entreaberta e viu que o pai se estava barbeando. Mantinha a torneira aberta, enquanto a lâmina ia varrendo o seu rosto. O Chico, sorrateiramente, fechou-a! O pai vira-se, para limpar a lâmina e repara na torneira fechada e, intrigado, abre-a novamente, continuando o seu barbear. Chico, à espreita, repete a brincadeira com um sorriso malicioso! E não se contendo, riu-se da marosca. O pai descobre-o .
- “ Seu maroto!” – diz-lhe o pai.
- “ Tu é que és..., pois não estás a poupar a água!” – lembra-lhe o Chico.
- “ E tens toda a razão. Nós às vezes fazemos as coisas sem pensar!” - e continuou:
“Mas queres ver o que é que eu fiz aqui?”. Ainda com a cara meio cheia de espuma de barbear, dirigiu-se ao autoclismo da sanita. Abriu a tampa e mostrou-lhe uma garrafa de água.
- “Oh!” – espanta-se o Chico!
E grita à porta da casa de banho:
- “ Mariana! Vem cá ver!” .
A Mariana chega num ápice.
- “Olha, o pai guarda, a água dentro do autoclismo! Oh! Pai, é para beberes enquanto estas sentado na sanita?” – perguntou o Chico em ar brincalhão, originando uma risada geral.
O pai, retirando novamente a garrafa, desafiou-os a descobrirem a diferença dentro do autoclismo.
Quando tirava a garrafa, o nível da água descia, e abriu a válvula do enchimento até ao nívelamento total.
Chico e Mariana compreenderam que, se a garrafa lá estivesse dentro, de cada vez que descarregassem o autoclismo, poupariam o equivalente a mais de um litro de água.
O pai continuou o seu barbear. Chega a mãe.
- “Uma reunião na casa de banho?”
- “Oh! mãe, já sei como é que se poupa a água no autoclismo. Adivinhas como?” – perguntou o Chico.
- “Claro que sei, pois o papá já me explicou que é com ....”
- “Uma garrafa de água lá dentro!” – atalhou o Chico.
- “E na banheira! Quem é que sabe, como se poupa?” – perguntou a mãe.
O pai vira a cabeça e esboça um sorriso. O Chico ficou sério, a pensar. Mas tinha que arranjar uma resposta.
- “É tomar banho uma vez por mês!” – respondeu.
O pai vira-se novamente e, limpando a lâmina, agora abre e fecha a torneira. Esboça novo sorriso.
A Mariana, em tom de gozo responde, revelando alguma cultura diz:
- “Eu é que sei! Toma-se banho como fazia a Cleópatra! Enche-se a banheira de leite e pronto! Até dá mais beleza! E assim não se gasta a água!”
- “Ah, mas se não houver água as vacas não bebem, e depois não vivem... e depois não há leite!” – retorquiu o Chico.
A mãe esclarece que, quando se toma um banho de imersão, gasta-se o equivalente a 250 garrafas de água.
- “Mas num duche gasta-se 10 vezes menos, por isso o segredo é este! Tomar duche e não banho de imersão”.
A mãe esclarece ainda:
-“Na sanita não se deve deitar papéis, cabelos, restos de comida... e coisas assim, sabem? É que a sanita não é nenhum caixote do lixo”, disse ela, apontando para um balde, presente no canto da casa de banho, denunciando dever ser esse utilizado.
O pai completa:
-“E, enquanto se escovam os dentes, não se deve deixar a torneira a correr contínuamente”, explicando que é preferível usar um copo.
Enquanto exibe o que normalmente usa para a sua higiene dentária, atalha o Chico, em tom de pleno gozo:
-“Olha quem fala! Nem quando se faz a barba se deve deixar a torneira a correr! Ah! Ah! Ah!”.
Chico entretanto toma o seu duche. Escrupulosamente gasta a água mínimamente necessária. Aliás todos o fizeram rápidamente, preparando-se para um passeio.
E está um belíssimo dia de sábado. Vão desfrutá-lo em plena natureza. Vão passear pela Serra de Aire. Observam as flores, que explodem em imensa sinfonia. As abelhas completam o encanto, colhendo o seu pólen, em danças graciosas. As borboletas passam junto deles, acariciando com o frágil bater das suas asas.
Descendo, lá no vale sentem nos pés a água cristalina e fresca do ribeiro. A mãe de Mariana entrança-lhe uma majestosa grinalda, com as mais variadas flores, e ornamenta-lhe a cabeça. Todos descobrem que, ao proteger a natureza, dão mais sentido à vida. E que, poupando a água, contribuem para uma vida mais sensata e feliz.

O pai coloca a sua máquina fotográfica em cima de uma pedra. Activa o disparo automático e corre, para ficarem todos juntos, naquele retrato de perfeita harmonia e felicidade.



Antero Guerra Inácio | 18.03.2005

Da ilusão à realidade

Na aldeia onde nasci, as curtas ruas que a mapeavam não eram asfaltadas e a eletricidade era coisa que nem ao imaginário pertencia. A aldeia mais próxima distava a menos de um quilómetro e já pertencia ao domínio estrangeiro, em que tudo era desconhecido. Daí a estranha surpresa de, quando pela primeira vez, vi uma estrada asfaltada. Para mim mais não era mais que uma estrada queimada. Ou o surpreendente mistério de ouvir uma voz saindo de uma singela caixinha com uma panóplia de rodinhas e botões no seu exterior. Mas mais surpreendente que a rádio, foi o primeiro contato com aquela luminosa caixinha mágica que conseguia mostrar tudo em movimento, no seu interior.

São essas experiências e vivências que vão construindo as nossas vidas e formando a nossa sabedoria e capacidade imaginativa, orientando-nos na tomada de decisões. No entanto há horizontes, neste processo de descoberta, distanciados da ilusão à realidade.

Aproxima-se mais um período eleitoral e já se fazem ouvir as vozes da influência. Período que, nalguns locais será agitado, noutros brando, dependendo do carisma dos candidatos. Aqui e ali surgem promessas de tudo realizar. Lá e além afirma-se, a pés juntos, que a população reside nos seus corações. É para eles e só para eles que irão trabalhar, caso ganhem o desejado mandato. O candidato José diz-se melhor e mais bem preparado que o candidato Manuel, mas o candidato Manuel diz exatamente o mesmo de José. Transformam-se em arquirrivais e digladiam-se até ao tutano, juntando laboriosas e fiéis hordas. Poucas não são as vezes em que as provocações e ofensas ganham terreno ilimitado. E quase sempre sem preço na responsabilidade a pagar. Populismos escapam-se aqui e ali em alucinante bebedeira. Outros querem o centro do terreiro para mostrar, em dourada multimédia, aquilo que quase sempre não passa de pechisbeque. Se umas guerras são feitas de violentas batalhas, outras são coloridas de paz mentirosa. Todos têm alguma razão, mas de longe, de muito longe, não a terão toda.


 Assim aconselha-se o caminho do esclarecimento simples e sucinto, com a verdade na ponta da língua e o bom senso na palavra. A mentira pelo que “tem de ser a qualquer preço”, no tal jogo do “vale tudo e mais alguma coisa” deveria ser punida. Exemplarmente julgada e punida!

É assim que os eleitores, expectantes e prontos a votar, constroem no seu imaginário o candidato perfeito. Bom ou mau. Exatamente aquele que lhe promete o mel, a abundância e o céu.

A democracia tem destas coisas, mas aos políticos há que exigir a verdade, o respeito e a sabedoria. A verdade pelo esclarecimento, o respeito pela tolerância e a sabedoria pela obra honesta. Ao eleitor compete votar e nunca se abster. É assim que o mundo avança e os horizontes ficam cada vez mais próximos.

Antero Guerra| Agosto 2021

A viagem das árvores

São cinco árvores e todas elas são diferentes. Se isoladas estivessem quase que passariam despercebidas, mas no seu conjunto transformam-se num atraente mistério.

Todos os dias as aprecio por alguns momentos. A avaliar pelas suas formas, têm identidade própria, tenho essa certeza. Ou, pela graciosidade do seu bailado, quando tocadas pela brisa que sopra fresca, vinda dos lados de lá da Serra de Aire. A mais ousada lança as suas ramagens em redor seu tronco, como uma águia exibindo as asas num longo planar. Outra estica-se para o ar como querendo chegar ao céu. Das restantes três destaca-se o pequeno elefante, pela sua forma. É isso mesmo que representa, sentado de tromba pendente parece amuado de costas viradas para a águia. E as duas restantes aparentam não querer impor-se, No entanto. completam o conjunto conferindo-lhe a perfeição.

Há décadas que as vejo crescer num quintal da minha rua e não tenho dúvidas que me inspiram. Ou é a diferença dos seus verdes ao longo do dia, os diferentes sons que delas saem ou a vida alada que por ali deambula. Observando assim estes seres condenados a viver presos ao solo, que mundo poderão eles conhecer?

Deambulando nesta quase caótica meditação concluo que, mesmo eternamente imóveis, estas podem viajar. Imagino quantos milhares de automóveis e aviões já viram. Os dialetos que escutaram. Os melhores e os piores odores que atravessaram o seu folham. Amores e ódios usaram a sua sombra. Tantas e tantas conversas ouviram, mesmo os maiores segredos e testemunharam lágrimas e alegrias.

 


A brisa, que do mar aqui se espraia, depois de pular a serra e o arrife, carrega consigo tanto eco, tanta cor e tanta história.

Num sentido que parece contrário a lógica as árvores viajam sem medos e sem ódios para longe. E quanto nos poderão ensinar na sua mudez?

Talvez a sua sabedoria nos ensine como conseguiremos limitar tanto a pobreza como a riqueza. Talvez a sua pose estática nos diga do valor da tolerância. Talvez o seu intenso verde nos contagie de esperança.

Antero Guerra | 29 Junho 2021

O amola tesouras

Lembro-me que, na minha infância, uma curiosa figura, de tempos a tempos, calcorreava os lugarejos oferecendo os seus serviços. Deslocava-se numa bicicleta adaptada com uma estranha geringonça de objetos que, para mim, eram complexas ferramentas que me impressionavam. Fazia-se anunciar com um típico som de gaita ou flauta de pã. Dizia-se que vinha da Galiza.

Afiava tesouras e facas e sei lá que mais. Alguns ainda reparavam os largos alguidares de barro partidos, colocando “gatos”, uma espécie de agrafos, unindo as peças.

Havia muita magia no desenrolar daqueles processos, ao observar as chispas de fogo que saíam da pedra esmeriladora. E depois de afiadas, lá tínhamos nós as facas e tesouras prontas para mais uma temporada e os alguidares preparados para a lavagem dos intestinos do porco, que acabariam no fumeiro em forma de chouriço.

Durante décadas deixei de ouvir esse curioso do amolador, mas, recentemente, começou a ouvir-se pelas nossas ruas. Na vontade de reviver aquela sensação da infância, vou sempre à janela espreitar e digo para os meus botões que um dia destes haverei de experimentar o serviço. É que a tarefa de afiar facas cá em casa nunca me correu da melhor perfeição.

Eis que, há alguns dias, um amola tesouras regressou. Perante o apito percebi que estava próximo e, decidido, corri a procurar algumas facas que precisavam de ser afiadas. Numa assentada juntei seis e perguntei quanto custaria aquele serviço. “Não se preocupe amigo”, respondeu-me, acrescentando que é barato. Concordei e pedi-lhe para executar a tarefa. Foi rápido. Talvez rápido demais, a avaliar pela “riscanhada” que gravou na folha das facas. Seis facas afiadas em pouco mais de um quarto de hora. Muito bem. Excelente o rapazola que trabalhou rápido. Agora era saber o custo. “Sessenta euros”, disse ele expedito. “Dez por cada faca”, respondeu ele, com a naturalidade de quem acaba de executar uma árdua e complexa tarefa. “É que a pedra de afiar a caríssima. Olhe, não lave as facas com água quente que estraga o fio”.

“Alto lá. Alto lá. Não se enganou na sua conta?” Exigi que ele reavaliasse o preço, pois isso nem o melhor cirurgião ganhava. Nem as facas valeriam tanto, talvez. Nada mal. Sessenta euros por quinze minutos de trabalho, mas paguei metade e lá se foi embora.

E pronto. Assim, o encanto que guardava da figura do amolador, apagou-se. Doravante, quando voltar a ouvir a flauta de pã, já não me virão as memórias da infância, mas o alerta para o gamanço. O amolador pode pedir todo o dinheiro que quiser, por isso convém perguntar sempre o preço, antecipadamente. Porque para alguém, duzentos e quarenta euros à hora é barato!

Antero Guerra | 7. setembro. 2020

23 de maio de 2022

Jolas e tremoços

Meter o dedo na ferida, ao que parece, significa tocar num assunto delicado, atingindo o âmago das fraquezas. Para mim sempre teve um sentido mais superficial e imediato. É o estancar da ferida ou o apaziguar da dor. Foi também um colocar o dedo na ferida, a lenda holandesa do pequeno Hans que salvou o país ao inserir o seu dedinho no buraquinho, que nervosamente vertia um fio de água, ameaçando tornar-se numa apocalíptica torrente.
Estava eu no café e, na mesa do lado, estavam dois cavalheiros em acesa discussão. O tempo que corre, ao que parece, não é para menos. Um, quase exaltado, porque o Covid ia invadir a festa da Atalaia e o outro a bater com o punho na mesa, dizendo que em Fátima, no dia 13 (que é número de azar), não vai haver peregrino que se safe, infetados até ao tutano. Na mesa atrás de mim alguém sussurrou “nesses, coitados, nem quase os jornais falaram”.
Mais dois tremoços comidos e um que se escapuliu para o chão e sai-se o primeiro disposto a incendiar a conversa “E achas bem o Costa apoiar o Benfica, pá?”. Bem fica, claro! E se fosse do Sporting ou do Porto era igual, qual é o problema? E disposto a responder a cem porcento, ainda completou que “agora, o Pinto, o inimigo público do Luís Filipe vir em sua ajuda… essa é que nem o diabo se ia lembrar”. Vem ajudar ou vem pôr dedos na ferida?
E os tremoços a acabarem. Não faz mal. Pedem-se mais umas “jolas” e eles vêm á borla.
“E ainda por cima, agora vai a cachopada toda para a escola” Estava teimoso, o outro, em não se calar. “Vai ser um lindo arraial de covides! Ah pois é. E a culpa é daquelas da saúde”. E do governo e até do Sousa das selfies, completou o segundo.
Pumba! Mais um tremoço a voar. A culpa é da acesa conversa. O empregado de mesa, apressado, não vendo aquele infeliz pitéu estatelado no chão, levou-o esborrachado na sola do sapato para a outra ponta da sala. Sabe-se lá, talvez exportando um punhado de covidezinhos.
As “jolas” voaram rápido. Uns arrotos silenciados com a mão na boca, um juntar de trocos para a despesa e estão feitos os discursos por hoje.


E lá fiquei eu em paz. Eu e as gentes nas mesas em redor.

Sem saber o que é que a lenda de Hans tem a ver com as jolas e tremoços, na verdade fiquei a meditar na exímia tendência que temos para nos lançarmos em exacerbadas críticas e maledicências. Até parece que tudo sabemos e somos guardiões das soluções milagrosas. Respaldados na nossa cadeirona, que nem o trono real, sabemos claramente que “ai se eu mandasse, carago!”. Falamos, falamos, falamos. E fazer, fazer, fazer… fica para depois. Adia-se e empurra-se para depois.
A lenda de Hans diz-nos que é preciso fazer. E agora, porque depois é tarde. Se Hans não se decidisse a manter o dedo, estancando o singelo fio de água, o dique iria ruir, engolindo toda a Holanda.
Por isso, melhor que falar é fazer. Quando muito tempo se perde a falar, melhor seria ficar sereno meditando na melhor forma de fazer.

Assim se realiza, sem ter de meter o dedo na ferida.

Antero Guerra | 14.09.2020