24 de agosto de 2020

A pintura mural renascida

Recentemente o Palácio da Justiça de Torres Novas foi objeto de obras de melhoria e conservação geral. A isso obrigava já o seu estado, após várias décadas sem intervenção de grande monta.

Já os trabalhos da pintura das paredes se encontravam na final, quando alguém reparou que a pintura mural, existente numa parede da escadaria, apresentava com evidências de avançada degradação.

 


A História de Portugal relata que em 1438 realizaram-se as cortes em Torres Novas. Por morte do rei D. Duarte, haveria que se prestar juramento ao rei D. Afonso V, com apenas 6 anos de idade. Ora, esta polémica regência seria ultrapassada mediante a aprovação de uma proposta do infante D. Henrique, na qual se estabelecia um regime de poder partilhado entre a rainha mãe, pelo infante D. Pedro e por umas cortes restritas criadas para este efeito.

Este Regimento do Reino, como ficou conhecido, funcionaria como um parlamento atual, mas acabaria anulado no ano seguinte.

Foi, exatamente, este o tema que serviu de base ao imponente painel pintado em madeira existente no Palácio da Justiça de Torres Novas.

Esta pintura mural, de grandes dimensões, tão presente aos olhos de quem diariamente por ali passa, afinal até parecia estar esquecida ao ponto de nem se saber quem foi o seu autor.

Contudo, uma atenta observação do quadro sensibilizou rapidamente a tutela, o Tribunal da Comarca de Santarém, para a urgência dos trabalhos de conservação e restauro. Entretanto, acerca da sua autoria, a única assinatura que se encontrou no quadro foi um ML.

De imediato o quadro foi analisado por especialistas de restauro e história da arte e facilmente se concluiu que aquele ML mais não era que Manuel Lapa, o seu autor.

Martim Lapa, filho do pintor confirmou ao jornal “O Almonda” que “foi um conjunto de circunstâncias felizes que nos fez encontrar o painel, e sim, trouxe grande emoção”.

Esta obra foi pintada no verão de 1979 e Manuel Lapa morreria em dezembro do mesmo ano. Acrescenta Martim Lapa que “esta foi a derradeira obra do meu pai e, de certo modo a nossa primeira, minha e da minha mulher, Carlota Emauz”.

Manuel Lapa é o nome artístico de D. Manuel Francisco de Almeida Vasconcellos, nascido em Lisboa em 1914. Pertencente a segunda geração dos artistas modernistas portugueses notabilizou-se como pintor, artista gráfico e decorador. Estudou e foi professor na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Manuel Lapa não era apologista do Estado Novo, contudo a propaganda ao regime manifesta-se em vários dos seus trabalhos. Em 1940 participou como diretor de arte da grande Exposição do Mundo Português. Colaborou com revistas e foi um dos artistas decoradores do Museu de Arte Popular. Foi ainda um dos fundadores do IADE, hoje Faculdade de Design Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia de Lisboa. Em 2019 e 2020 realizaram-se duas grandes exposições alusivas à sua obra, nomeadamente em Setúbal e Matosinhos.

Referiu-nos o Administrador Judiciário da Comarca de Santarém que é com grande prazer que agora se apresenta a obra de conservação do edifício e, em especial, esta grandiosa pintura mural, meticulosamente recuperada, marcando a abertura de mais um ano judicial.

Os trabalhos referentes à obra de arte foram realizados pela Nova Conservação, empresa esta com larga experiência. Salienta-se que os seus técnicos já foram convidados a participar em consultoria e projetos de conservação e restauro em Itália, Argentina, Índia, China e Líbia. Por cá têm sido variadíssimas as suas intervenções na monumentalidade classificada.

Nuno Proença, técnico responsável pela empresa, confirmou-nos que esta pintura, realizada sobre madeira, efetivamente encontrava-se em mau estado. Para além da normal degradação cromática, vastas zonas apresentavam craquelé, ou seja, a superfície da pintura estalada, havendo ainda zonas que apresentavam desprendimento da camada de tinta.

Agora em fase final, estes trabalhos duraram cerca de dois meses e o custo rondou 17 mil euros ao estado.

Antero Guerra | 24 Agosto 2020

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