Meter o dedo na ferida, ao que
parece, significa tocar num assunto delicado, atingindo o âmago das fraquezas.
Para mim sempre teve um sentido mais superficial e imediato. É o estancar da
ferida ou o apaziguar da dor. Foi também um colocar o dedo na ferida, a lenda
holandesa do pequeno Hans que salvou o país ao inserir o seu dedinho no
buraquinho, que nervosamente vertia um fio de água, ameaçando tornar-se numa
apocalíptica torrente.
Estava eu no café e, na mesa do lado, estavam dois cavalheiros em acesa discussão. O tempo que corre, ao que parece, não é para menos. Um, quase exaltado, porque o Covid ia invadir a festa da Atalaia e o outro a bater com o punho na mesa, dizendo que em Fátima, no dia 13 (que é número de azar), não vai haver peregrino que se safe, infetados até ao tutano. Na mesa atrás de mim alguém sussurrou “nesses, coitados, nem quase os jornais falaram”.
Mais dois tremoços comidos e um que se escapuliu para o chão e sai-se o primeiro disposto a incendiar a conversa “E achas bem o Costa apoiar o Benfica, pá?”. Bem fica, claro! E se fosse do Sporting ou do Porto era igual, qual é o problema? E disposto a responder a cem porcento, ainda completou que “agora, o Pinto, o inimigo público do Luís Filipe vir em sua ajuda… essa é que nem o diabo se ia lembrar”. Vem ajudar ou vem pôr dedos na ferida?
E os tremoços a acabarem. Não faz mal. Pedem-se mais umas “jolas” e eles vêm á borla.
“E ainda por cima, agora vai a cachopada toda para a escola” Estava teimoso, o outro, em não se calar. “Vai ser um lindo arraial de covides! Ah pois é. E a culpa é daquelas da saúde”. E do governo e até do Sousa das selfies, completou o segundo.
Pumba! Mais um tremoço a voar. A culpa é da acesa conversa. O empregado de mesa, apressado, não vendo aquele infeliz pitéu estatelado no chão, levou-o esborrachado na sola do sapato para a outra ponta da sala. Sabe-se lá, talvez exportando um punhado de covidezinhos.
As “jolas” voaram rápido. Uns arrotos silenciados com a mão na boca, um juntar de trocos para a despesa e estão feitos os discursos por hoje.
Estava eu no café e, na mesa do lado, estavam dois cavalheiros em acesa discussão. O tempo que corre, ao que parece, não é para menos. Um, quase exaltado, porque o Covid ia invadir a festa da Atalaia e o outro a bater com o punho na mesa, dizendo que em Fátima, no dia 13 (que é número de azar), não vai haver peregrino que se safe, infetados até ao tutano. Na mesa atrás de mim alguém sussurrou “nesses, coitados, nem quase os jornais falaram”.
Mais dois tremoços comidos e um que se escapuliu para o chão e sai-se o primeiro disposto a incendiar a conversa “E achas bem o Costa apoiar o Benfica, pá?”. Bem fica, claro! E se fosse do Sporting ou do Porto era igual, qual é o problema? E disposto a responder a cem porcento, ainda completou que “agora, o Pinto, o inimigo público do Luís Filipe vir em sua ajuda… essa é que nem o diabo se ia lembrar”. Vem ajudar ou vem pôr dedos na ferida?
E os tremoços a acabarem. Não faz mal. Pedem-se mais umas “jolas” e eles vêm á borla.
“E ainda por cima, agora vai a cachopada toda para a escola” Estava teimoso, o outro, em não se calar. “Vai ser um lindo arraial de covides! Ah pois é. E a culpa é daquelas da saúde”. E do governo e até do Sousa das selfies, completou o segundo.
Pumba! Mais um tremoço a voar. A culpa é da acesa conversa. O empregado de mesa, apressado, não vendo aquele infeliz pitéu estatelado no chão, levou-o esborrachado na sola do sapato para a outra ponta da sala. Sabe-se lá, talvez exportando um punhado de covidezinhos.
As “jolas” voaram rápido. Uns arrotos silenciados com a mão na boca, um juntar de trocos para a despesa e estão feitos os discursos por hoje.
E lá fiquei eu em paz. Eu e as
gentes nas mesas em redor.
Sem saber o que é que a lenda de Hans tem a ver com as jolas e tremoços, na verdade fiquei a meditar na exímia tendência que temos para nos lançarmos em exacerbadas críticas e maledicências. Até parece que tudo sabemos e somos guardiões das soluções milagrosas. Respaldados na nossa cadeirona, que nem o trono real, sabemos claramente que “ai se eu mandasse, carago!”. Falamos, falamos, falamos. E fazer, fazer, fazer… fica para depois. Adia-se e empurra-se para depois.
A lenda de Hans diz-nos que é preciso fazer. E agora, porque depois é tarde. Se Hans não se decidisse a manter o dedo, estancando o singelo fio de água, o dique iria ruir, engolindo toda a Holanda.
Por isso, melhor que falar é fazer. Quando muito tempo se perde a falar, melhor seria ficar sereno meditando na melhor forma de fazer.
Assim se realiza, sem ter de meter o dedo na ferida.
Antero Guerra | 14.09.2020

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