24 de maio de 2022

O amola tesouras

Lembro-me que, na minha infância, uma curiosa figura, de tempos a tempos, calcorreava os lugarejos oferecendo os seus serviços. Deslocava-se numa bicicleta adaptada com uma estranha geringonça de objetos que, para mim, eram complexas ferramentas que me impressionavam. Fazia-se anunciar com um típico som de gaita ou flauta de pã. Dizia-se que vinha da Galiza.

Afiava tesouras e facas e sei lá que mais. Alguns ainda reparavam os largos alguidares de barro partidos, colocando “gatos”, uma espécie de agrafos, unindo as peças.

Havia muita magia no desenrolar daqueles processos, ao observar as chispas de fogo que saíam da pedra esmeriladora. E depois de afiadas, lá tínhamos nós as facas e tesouras prontas para mais uma temporada e os alguidares preparados para a lavagem dos intestinos do porco, que acabariam no fumeiro em forma de chouriço.

Durante décadas deixei de ouvir esse curioso do amolador, mas, recentemente, começou a ouvir-se pelas nossas ruas. Na vontade de reviver aquela sensação da infância, vou sempre à janela espreitar e digo para os meus botões que um dia destes haverei de experimentar o serviço. É que a tarefa de afiar facas cá em casa nunca me correu da melhor perfeição.

Eis que, há alguns dias, um amola tesouras regressou. Perante o apito percebi que estava próximo e, decidido, corri a procurar algumas facas que precisavam de ser afiadas. Numa assentada juntei seis e perguntei quanto custaria aquele serviço. “Não se preocupe amigo”, respondeu-me, acrescentando que é barato. Concordei e pedi-lhe para executar a tarefa. Foi rápido. Talvez rápido demais, a avaliar pela “riscanhada” que gravou na folha das facas. Seis facas afiadas em pouco mais de um quarto de hora. Muito bem. Excelente o rapazola que trabalhou rápido. Agora era saber o custo. “Sessenta euros”, disse ele expedito. “Dez por cada faca”, respondeu ele, com a naturalidade de quem acaba de executar uma árdua e complexa tarefa. “É que a pedra de afiar a caríssima. Olhe, não lave as facas com água quente que estraga o fio”.

“Alto lá. Alto lá. Não se enganou na sua conta?” Exigi que ele reavaliasse o preço, pois isso nem o melhor cirurgião ganhava. Nem as facas valeriam tanto, talvez. Nada mal. Sessenta euros por quinze minutos de trabalho, mas paguei metade e lá se foi embora.

E pronto. Assim, o encanto que guardava da figura do amolador, apagou-se. Doravante, quando voltar a ouvir a flauta de pã, já não me virão as memórias da infância, mas o alerta para o gamanço. O amolador pode pedir todo o dinheiro que quiser, por isso convém perguntar sempre o preço, antecipadamente. Porque para alguém, duzentos e quarenta euros à hora é barato!

Antero Guerra | 7. setembro. 2020

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