Havia
muita magia no desenrolar daqueles processos, ao observar as chispas de fogo
que saíam da pedra esmeriladora. E depois de afiadas, lá tínhamos nós as facas
e tesouras prontas para mais uma temporada e os alguidares preparados para a
lavagem dos intestinos do porco, que acabariam no fumeiro em forma de chouriço.
Durante
décadas deixei de ouvir esse curioso do amolador, mas, recentemente, começou a
ouvir-se pelas nossas ruas. Na vontade de reviver aquela sensação da infância,
vou sempre à janela espreitar e digo para os meus botões que um dia destes haverei
de experimentar o serviço. É que a tarefa de afiar facas cá em casa nunca me
correu da melhor perfeição.
Eis que, há alguns dias, um amola tesouras regressou. Perante o apito percebi que estava próximo e, decidido, corri a procurar algumas facas que precisavam de ser afiadas. Numa assentada juntei seis e perguntei quanto custaria aquele serviço. “Não se preocupe amigo”, respondeu-me, acrescentando que é barato. Concordei e pedi-lhe para executar a tarefa. Foi rápido. Talvez rápido demais, a avaliar pela “riscanhada” que gravou na folha das facas. Seis facas afiadas em pouco mais de um quarto de hora. Muito bem. Excelente o rapazola que trabalhou rápido. Agora era saber o custo. “Sessenta euros”, disse ele expedito. “Dez por cada faca”, respondeu ele, com a naturalidade de quem acaba de executar uma árdua e complexa tarefa. “É que a pedra de afiar a caríssima. Olhe, não lave as facas com água quente que estraga o fio”.
“Alto
lá. Alto lá. Não se enganou na sua conta?” Exigi que ele reavaliasse o preço,
pois isso nem o melhor cirurgião ganhava. Nem as facas valeriam tanto, talvez. Nada
mal. Sessenta euros por quinze minutos de trabalho, mas paguei metade e lá se
foi embora.
E
pronto. Assim, o encanto que guardava da figura do amolador, apagou-se. Doravante,
quando voltar a ouvir a flauta de pã, já não me virão as memórias da infância,
mas o alerta para o gamanço. O amolador pode pedir todo o dinheiro que quiser,
por isso convém perguntar sempre o preço, antecipadamente. Porque para alguém,
duzentos e quarenta euros à hora é barato!
Antero Guerra | 7. setembro. 2020

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