24 de maio de 2022

Da ilusão à realidade

Na aldeia onde nasci, as curtas ruas que a mapeavam não eram asfaltadas e a eletricidade era coisa que nem ao imaginário pertencia. A aldeia mais próxima distava a menos de um quilómetro e já pertencia ao domínio estrangeiro, em que tudo era desconhecido. Daí a estranha surpresa de, quando pela primeira vez, vi uma estrada asfaltada. Para mim mais não era mais que uma estrada queimada. Ou o surpreendente mistério de ouvir uma voz saindo de uma singela caixinha com uma panóplia de rodinhas e botões no seu exterior. Mas mais surpreendente que a rádio, foi o primeiro contato com aquela luminosa caixinha mágica que conseguia mostrar tudo em movimento, no seu interior.

São essas experiências e vivências que vão construindo as nossas vidas e formando a nossa sabedoria e capacidade imaginativa, orientando-nos na tomada de decisões. No entanto há horizontes, neste processo de descoberta, distanciados da ilusão à realidade.

Aproxima-se mais um período eleitoral e já se fazem ouvir as vozes da influência. Período que, nalguns locais será agitado, noutros brando, dependendo do carisma dos candidatos. Aqui e ali surgem promessas de tudo realizar. Lá e além afirma-se, a pés juntos, que a população reside nos seus corações. É para eles e só para eles que irão trabalhar, caso ganhem o desejado mandato. O candidato José diz-se melhor e mais bem preparado que o candidato Manuel, mas o candidato Manuel diz exatamente o mesmo de José. Transformam-se em arquirrivais e digladiam-se até ao tutano, juntando laboriosas e fiéis hordas. Poucas não são as vezes em que as provocações e ofensas ganham terreno ilimitado. E quase sempre sem preço na responsabilidade a pagar. Populismos escapam-se aqui e ali em alucinante bebedeira. Outros querem o centro do terreiro para mostrar, em dourada multimédia, aquilo que quase sempre não passa de pechisbeque. Se umas guerras são feitas de violentas batalhas, outras são coloridas de paz mentirosa. Todos têm alguma razão, mas de longe, de muito longe, não a terão toda.


 Assim aconselha-se o caminho do esclarecimento simples e sucinto, com a verdade na ponta da língua e o bom senso na palavra. A mentira pelo que “tem de ser a qualquer preço”, no tal jogo do “vale tudo e mais alguma coisa” deveria ser punida. Exemplarmente julgada e punida!

É assim que os eleitores, expectantes e prontos a votar, constroem no seu imaginário o candidato perfeito. Bom ou mau. Exatamente aquele que lhe promete o mel, a abundância e o céu.

A democracia tem destas coisas, mas aos políticos há que exigir a verdade, o respeito e a sabedoria. A verdade pelo esclarecimento, o respeito pela tolerância e a sabedoria pela obra honesta. Ao eleitor compete votar e nunca se abster. É assim que o mundo avança e os horizontes ficam cada vez mais próximos.

Antero Guerra| Agosto 2021

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