Chico acordou em sobressalto. Tivera um pesadelo que o deixou deveras preocupado. Sonhara que se encontrava numa terra sem plantas, sem água, sem casas. Era um deserto imenso, onde a única forma concreta, existente, era a aridez. Era ele próprio a única forma de vida. Aquele isolamento, em que se encontrava, sufocava-o e ditava-lhe o termo da sua existência.
Levantou-se enérgicamente e correu para a janela, ainda na incerteza da fronteira entre o sonho e a realidade. Correu as cortinas e pôde ver que o seu jardim estava verde. Que as flores estavam ainda lá, em pleno encanto. Sentira que os pais já se haviam levantado e correu à cozinha, onde a mãe ia preparando os seus afazeres.
- “Bom dia mãe. Mãe! Tive um sonho de arrepiar. Tive tanto medo! Estava numa terra sem água! Era só eu. Era tudo tão seco!” - disse o Chico numa rajada, enquanto a mãe o afagava na vontade de o tranquilizar.
- “ Pois é Chico!” - retorquia a mãe. - “Sabes que há muitos meses que não chove. Os campos não têm água. Os rios quase não corre, e nós devemos ter muito cuidado a usar a água, porque sem ela não pode haver vida.”- e a mãe continuou os seus afazeres.
Chico correu à torneira, que insistia em pingar, e deu-lhe um ligeiro aperto.
-“ O papá ainda dorme?” - perguntou o Chico.
- “ Não! Está no jardim!” - respondeu-lhe a mãe.
Chico, correndo e já a abrir a porta para o jardim, disse:
- “Vou-lhe contar o meu sonho!”
O pai estava a colocar cascas de pinheiro nos limites da área da relva. Já o havia feito, noutras pequenas zonas do jardim, com seixo rolado e brita.
Num repente Chico ultrapassa os poucos degraus para o jardim num salto.
-“ Oi papá!”
- “ Dormiste bem, Chico?” - perguntou o pai com grande naturalidade.
- “ Papá! Tive um sonho... e tive tanto medo!”
...
A paisagem é árida. A ausência do verde é total. O céu avermelhado, mais parece um ambiente marciano. Na televisão um comunicado do presidente:
“Caros Munícipes,
Os níveis de precipitação ocorridos este inverno são muito inferiores aos valores médios habituais, podendo considerar-se este ano como “muito seco”.
Este facto reduziu drasticamente o armazenamento de água nas albufeiras, bem como diminuir as reservas de água subterrâneas.
É, por isso, aconselhável que cada cidadão se sinta sensibilizado para poupar ao máximo a água que chega às nossa casas.
Permitam-me, pois, que me dirija a todos vós chamando a atenção para uma correcta utilização deste bem precioso.
POUPE HOJE, PARA TER AMANHÃ!”
...
- “ Olha Chico! Queres ajudar o papá? - perguntou o pai.
- “ Pode ser! Posso regar? – propõe o Chico, pegando numa mangueira.
- “Sim, podes regar, mas com algum cuidado, para poupar a água.” – respondeu o pai. E continuou:
- “Aquelas plantas além precisam de muita pouca água, porque são plantas mediterrânicas. As outras, acolá – essas sim, podes regá-las um pouco melhor! Vê como estão lindas, aquelas rosas!” – disse o pai apontando, para um canteiro de rosas.
O pai aplicou uma torneira na extremidade da mangueira e Chico tinha o cuidado de a fechar cada vez que mudava de planta.
- “ Olha Chico! Essa torneira é uma torneira misturadora de ar. É muito boa, porque assim corre muito menos água.”
Aquele jardim parecia irradiar felicidade.
Entretanto a mãe preparava o pequeno almoço e convidou-os a irem à cozinha. O pai e o Chico terminaram rápidamente o seu trabalho no jardim.
-“Olha Chico, esqueci-me de te dizer que é muito importante regar de manhã! Mas pode ser de manhã ou ao pôr do sol.”- disse o pai, preparando-se para devorar uma torrada
- “Sabes... porque a terra ainda não está tão quente, por isso a água da rega não desaparece. Quer dizer, não se evapora. Assim as plantas ficam melhor regadas e não se perde tanta água!” – explicou o pai.
- “ Mas também tenho que dizer uma coisa.” – disse a mãe, enquanto se levantava e arrumava a sua loiça, no lava-loiça. - “Que aconteceria se os animais não tivessem água para beber? As vaquinhas não poderiam produzir o leite, que tão bem nos soube agora de manhã! Não acham?” – completava a mãe.
- “Que horror mãe! Temos mesmo que poupar a água!” – concluiu o Chico.
A mãe aproveitou a circunstância para solicitar uma pequena ajuda.
- “Agora vou encher a máquina de roupa! Tu Chico, vai acordar a Mariana. Ela ontem estudou até muito tarde. Deve estar bem cansada.” – disse a mãe.
- “Bom dia!” – era Mariana que, afinal já chegava à cozinha, esfregando os olhos e revelando, de facto, o cansaço do seu serão de trabalho na noite anterior. Não foi preciso chamá-la.
Chico não perdeu tempo para contar o seu sonho.
- “ Temos mesmo que poupar a água!” – concluía a Mariana.
A mãe passa com o cesto da roupa suja e pára junto do Chico dizendo-lhe:
- “Tu Chico... não puseste a tua roupa suja no cesto!” – repreende-o com alguma candura.
E correu rápidamente ao seu quarto. A mãe já se encontrava junto da máquina de lavar, quando o Chico chega com a sua roupa e observa que é o suficiente para completar a carga.
- “Vês Chico, cada vez que a máquina lava gasta-se o equivalente a 100 garrafas de água!”
- “ Tanta água!” – diz o Chico.
- “E é por isso que não se deve usar a máquina, se ela não estiver bem cheia!” – explicou a mãe.
O Chico concluiu que o mesmo será com a máquina de lavar loiça!
- “Quer dizer que a máquina de lavar loiça também tem que ficar cheia, não é?” – disse o Chico caminhando para a cozinha.
O pai já se encontrava na casa de banho.
O Chico reparou que, na bancada havia alguma loiça, suja acumulada do jantar da noite anterior e, rapidamente, assumiu a iniciativa de a colocar na máquina. Em verdade com boa vontade, mas com alguma desordem.
E encheu-a de tal modo que já nem fechava.
A mãe chegou e, rindo-se, explicou-lhe que a intenção foi boa mas...
- “ Queres ver os pratos que colocaste? Ainda têm o molho do peixe de ontem, temos que os tirar outra vez e limpá-los com papel. Assim...”.
E mostrou-lhe como se faz.
Mariana aproximou-se e também ajudou na tarefa.
A mãe retirou alguns tachos e uma panela que o Chico colocara na máquina, de forma algo caótica, - e que enchiam demasiado – para o lava-loiça, esclarecendo:
- “ Estes, temos que os lavar à mão no lava-loiça!”
- “Eu faço isso, mãe!” – prontificou-se a Mariana, fechando já o ralo do lava-loiça e, com a outra mão, pegando no detergente.
O Chico sentiu já não ser necessário na cozinha e decidiu ir ao seu quarto. Mas não sem dar mais uma espreitadela, através da janela, para o jardim, observando algum efeito do seu esforço, que dedicara às plantas.
Ao passar junto à casa de banho, reparou na porta entreaberta e viu que o pai se estava barbeando. Mantinha a torneira aberta, enquanto a lâmina ia varrendo o seu rosto. O Chico, sorrateiramente, fechou-a! O pai vira-se, para limpar a lâmina e repara na torneira fechada e, intrigado, abre-a novamente, continuando o seu barbear. Chico, à espreita, repete a brincadeira com um sorriso malicioso! E não se contendo, riu-se da marosca. O pai descobre-o .
- “ Seu maroto!” – diz-lhe o pai.
- “ Tu é que és..., pois não estás a poupar a água!” – lembra-lhe o Chico.
- “ E tens toda a razão. Nós às vezes fazemos as coisas sem pensar!” - e continuou:
“Mas queres ver o que é que eu fiz aqui?”. Ainda com a cara meio cheia de espuma de barbear, dirigiu-se ao autoclismo da sanita. Abriu a tampa e mostrou-lhe uma garrafa de água.
- “Oh!” – espanta-se o Chico!
E grita à porta da casa de banho:
- “ Mariana! Vem cá ver!” .
A Mariana chega num ápice.
- “Olha, o pai guarda, a água dentro do autoclismo! Oh! Pai, é para beberes enquanto estas sentado na sanita?” – perguntou o Chico em ar brincalhão, originando uma risada geral.
O pai, retirando novamente a garrafa, desafiou-os a descobrirem a diferença dentro do autoclismo.
Quando tirava a garrafa, o nível da água descia, e abriu a válvula do enchimento até ao nívelamento total.
Chico e Mariana compreenderam que, se a garrafa lá estivesse dentro, de cada vez que descarregassem o autoclismo, poupariam o equivalente a mais de um litro de água.
O pai continuou o seu barbear. Chega a mãe.
- “Uma reunião na casa de banho?”
- “Oh! mãe, já sei como é que se poupa a água no autoclismo. Adivinhas como?” – perguntou o Chico.
- “Claro que sei, pois o papá já me explicou que é com ....”
- “Uma garrafa de água lá dentro!” – atalhou o Chico.
- “E na banheira! Quem é que sabe, como se poupa?” – perguntou a mãe.
O pai vira a cabeça e esboça um sorriso. O Chico ficou sério, a pensar. Mas tinha que arranjar uma resposta.
- “É tomar banho uma vez por mês!” – respondeu.
O pai vira-se novamente e, limpando a lâmina, agora abre e fecha a torneira. Esboça novo sorriso.
A Mariana, em tom de gozo responde, revelando alguma cultura diz:
- “Eu é que sei! Toma-se banho como fazia a Cleópatra! Enche-se a banheira de leite e pronto! Até dá mais beleza! E assim não se gasta a água!”
- “Ah, mas se não houver água as vacas não bebem, e depois não vivem... e depois não há leite!” – retorquiu o Chico.
A mãe esclarece que, quando se toma um banho de imersão, gasta-se o equivalente a 250 garrafas de água.
- “Mas num duche gasta-se 10 vezes menos, por isso o segredo é este! Tomar duche e não banho de imersão”.
A mãe esclarece ainda:
-“Na sanita não se deve deitar papéis, cabelos, restos de comida... e coisas assim, sabem? É que a sanita não é nenhum caixote do lixo”, disse ela, apontando para um balde, presente no canto da casa de banho, denunciando dever ser esse utilizado.
O pai completa:
-“E, enquanto se escovam os dentes, não se deve deixar a torneira a correr contínuamente”, explicando que é preferível usar um copo.
Enquanto exibe o que normalmente usa para a sua higiene dentária, atalha o Chico, em tom de pleno gozo:
-“Olha quem fala! Nem quando se faz a barba se deve deixar a torneira a correr! Ah! Ah! Ah!”.
Chico entretanto toma o seu duche. Escrupulosamente gasta a água mínimamente necessária. Aliás todos o fizeram rápidamente, preparando-se para um passeio.
E está um belíssimo dia de sábado. Vão desfrutá-lo em plena natureza. Vão passear pela Serra de Aire. Observam as flores, que explodem em imensa sinfonia. As abelhas completam o encanto, colhendo o seu pólen, em danças graciosas. As borboletas passam junto deles, acariciando com o frágil bater das suas asas.
Descendo, lá no vale sentem nos pés a água cristalina e fresca do ribeiro. A mãe de Mariana entrança-lhe uma majestosa grinalda, com as mais variadas flores, e ornamenta-lhe a cabeça. Todos descobrem que, ao proteger a natureza, dão mais sentido à vida. E que, poupando a água, contribuem para uma vida mais sensata e feliz.
O pai coloca a sua máquina fotográfica em cima de uma pedra. Activa o disparo automático e corre, para ficarem todos juntos, naquele retrato de perfeita harmonia e felicidade.
Antero Guerra Inácio | 18.03.2005
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